Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
Escrever a dor
escrever a dor
pois claro
sempre
a dor.
pois que se fosse a ventura
se fosse o prazer
a felicidade
haveria razão plausível
para perder tempo
a escrevê-los?
egoísmo?
questão de palavras.
chamar-lhe-ia antes
de humanidade
e eu
nunca desejei
ser menos humano
que ninguém.
quando eu rir
juro
não convidarei
ninguém a perder tempo.
Quinta-feira, 29 de Junho de 2006
Neste natal
Neste natal não vais ter prenda
neste natal
serás apenas
mais um esquecimento
talvez
o meu próprio olvido
de algo que
provavelmente
nunca sentiste
neste natal morre de vez
a esperança; morre de vez
isto que escrevo
Quinta-feira, 25 de Maio de 2006
Quanto te importas
quanto te importas comigo?
como poderei saber
o quanto te importas comigo?
Tudo o que conta
é o que é feito
Tudo o que existe
é o que se vê
e em face da necessidade
do outro
o suposto amor
transfigura-se
em mera conjectura.
hoje
o outro sou eu
desconheço
a quantidade do teu amor
procedo
em conformidade
com o invisível
em conformidade
com o nada.
Domingo, 26 de Março de 2006
Encontrei-te num cigarrinho
encontrei-te num cigarrinho
entre dois sonhos de nudez envergonhada
o tempo escorrendo dos meus dedos
sobre o teu cabelo como areia da praia.
agora que a vigília retorna
ao calor de um corpo que não pertenço
perco-te
na evolução caótica das fumaças.
como sempre
o que fazer
com a memória do que não foi
e mesmo assim se terá perdido?
que sonho estranho!
permaneço aqui como que liberto
da ilusão pueril
de algum dia
termos sido
juntos.
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2006
Horas para nada
Antes não havia
horas para nada,
não era preciso
ficar a pé até tarde;
porque a vida era muita e só
se fazia o que apetecia
nada mais
As tardes eram longas e as noites
cheias de sonhos
e a própria vigília muito mais
do que simplesmente estar desperto
Antes havia
muito ainda para viver não era preciso
correr não era preciso
ter sono e ficar acordado
Antes não se faziam perguntas
aceitava-se tudo o que se dizia
e o que se dizia bastava
porque era sempre verdade
Antes
era-se muito mais
como a verdade
e a saudade
um conhecimento abstracto e incompreensível
A saudade
era só uma palavra
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005
Como um país de que sou estrangeiro
Como um país de que sou estrangeiro
mas conheço
os recantos os animais
e o cheiro da terra
Como um país em sonho longas horas
após o parto
o momento primeiro
em que abri os olhos
Como uma gente desconhecida de que não
se sente o puncionar fortuito da opinião
Como um deserto
Como a primeira vez
de um lugar-comum
Como algo deteriorável
mas ainda viçoso
como talvez
a juventude de todas as coisas
Como, se calhar
um egoísmo infantil que a necessária
adultícia reprimiu
Como dizer
'quero-te para mim
quero-te só para mim'
Como a inexplicável teimosia
em se preferir
estar por si
e continuar
fingindo.
Segunda-feira, 7 de Novembro de 2005
Desenhos e livros e angústia
desenhos e livros e angústia
massa informe de uma vida que
não se suporta em casa, não isso não
tudo sempre
tão arrumado a um canto
tudo sempre
comprado carregado e guardado
para se poder dizer finalmente
'é meu; está ali'
e depois fugir disso tudo
porque não se aguenta não se pode
com todo o peso dessas coisas
todo o peso
da negação de uma vida que
se desejou e faltou sempre
todo o peso
dessa vida da qual
se fugiu incessantemente...
Terça-feira, 13 de Setembro de 2005
Não mais festas
Não mais festas não mais gavetas
abertas sobre uma estranha
interlinha de intimidade;
não mais iis sem ponto
não mais palavras sem significado
não mais
palavras.
Não mais festas não mais gavetas
não mais contas astronómicas
de telefone;
não mais palavras por favor
nem vento
nem brisa de sentimento.
Essas coisas não são
essas coisas não aquecem;
não mais cobardia não mais preguiça
tudo isto é errado nada disto
existe efectivamente;
não mais
palavras semeadas a esmo
conversas
como redes a um mar estéril;
não mais coisas que não existem
para guardar em gavetas
que não mais não mais
se hão-de voltar a abrir.
Não mais palavras não mais festas
não mais festas
em tua cabeça não mais.
Segunda-feira, 5 de Setembro de 2005
Olha consigo ser
olha consigo ser
esse medo de olhar maléfico
essa solidão no meio
de muita gente - ui que medo;
consigo
a vergonha e os suores frios
as pedras da calçada e o constante
tenebroso
som dos meus passos
numa rua deserta;
consigo
o desejo eterno
e a negação constante
da sua consumação
olha para mim
sobrevivo
com os braços dos outros
sobre a minha cabeça eu sou
a própria natureza
de um desgosto perene e não morro;
os ais e os uis e os porquês
repetidos à exaustão
olha para mim
não me ligues
não me ligues para o telefone
não ligues
enquanto falo
palavras de um subliminar existir
assim
no medo que eu sou
no seu
sorriso nervoso
Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005
Devir
não és tu não és não é a tua
felicidade sorriso ou bem-estar
- antes moléculas em tua cabeça
composição farmacológica de coisas
que não não são alma -
são os comprimidos que tomas
ou a educação que tiveste
ou talvez
coisas que aconteceram e que
originaram outras coisas ainda
coisas que não são tu não são
não são a tua
tristeza choro ou angústia
o cigarro que pedes não é
a vontade que tens de fumar
não aquilo de que te lembraste num momento
e que agora desapareceu para sempre
fumas mas a vontade
não podes matá-la porque já não
já não é a mesma
podes fumar
mas não és a mesma coisa
não és tu não és não é a tua
vontade desejo ou sonho
não é mais o teu sonho
o teu sonho não mais
é o mesmo para que possas
algum dia pensar
algum dia
concretizá-lo.